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O Sutra do Diamante

O Sutra do Diamante

Esta tradução de O Diamante que Corta a Ilusão, às vezes conhecido simplesmente como O Sutra do Diamante, foi preparada por Thich Nhat Hanh a partir do Vajracchedika Prajnaparamita Sutra (em sânscrito) e da versão revisada do Taisho Tripitaka em chinês, N.º 335. O gatha de abertura foi composto por Thich Nhat Hanh para preceder a tradução.

Este sutra está presente no livro de Thay, Chanting from the Heart (Parallax Press, edição revisada, 2006).

O sutra é regularmente recitado nos centros de prática da tradição de Plum Village em todo o mundo, como parte de sessões diárias de meditação sentada e de cantos. Para mais comentários a respeito deste texto, consulte o livro The Diamond That Cuts Through Illusion (Parallax Press, edição revisada, 2010).

O Diamante que Corta a Ilusão

Gatha de abertura

Como podemos superar o medo do nascimento e da morte
e atingir o estado que é tão indestrutível quanto um diamante?
Que caminho pode nos direcionar em nossa prática
de varrer nossas milhares de ilusões?
Se a mente desperta mostrar sua compaixão
e abrir para nós o depósito dos tesouros,
então poderemos trazer para nossas vidas
os maravilhosos ensinamentos do diamante.

Discurso (sutra)

Isto é o que ouvi certa vez, quando o Buda estava hospedado no mosteiro do parque de Anathapindika, no bosque de Jeta, perto de Shravasti, junto a uma comunidade de 1.250 bhikshus, monges completamente ordenados.

Naquele dia, quando chegou o momento de recolher as esmolas, o Buda vestiu seu manto sanghati e, segurando sua tigela, foi até a cidade de Shravasti para mendigar comida, indo de casa em casa. Quando a ronda de esmolas foi concluída, ele retornou ao mosteiro para a refeição do meio-dia. Em seguida, guardou seu manto sanghati e sua tigela, lavou os pés, arrumou sua almofada e sentou-se.

Naquela ocasião, o Venerável Subhuti se levantou, desnudou o ombro direito, repousou o joelho no chão e, cruzando as palmas das mãos respeitosamente, disse ao Buda: “Ó, Mundialmente Honrado, é raro encontrarmos alguém como o senhor. Sempre nos apóia e demonstra especial confiança nos bodhisattvas.
“Mundialmente Honrado, se filhos e filhas de boas famílias desejam dar origem à mente mais elevada, mais realizada e desperta, em que devem confiar e o que devem fazer para dominarem seu pensamento?”

O Buda disse a Subhuti: “É assim que o Bodhisattvas Mahasattvas dominam seus pensamentos: ‘Não importa quantas espécies de seres vivos existam — sejam nascidos de ovos, do útero, da umidade ou espontaneamente; se têm forma ou não; se têm ou não percepções; ou se não se pode dizer que possuem percepções ou não —, devemos conduzir todos esses seres ao nirvana para poderem ser liberados. No entanto, quando esse número inumerável, incomensurável e infinito de seres for liberado, na verdade, não pensamos que um único ser sequer foi liberado’.

“Por que isto é assim? Subhuti, se um bodhisattva se apega à ideia de que existe um eu, uma pessoa, um ser vivo ou a duração de uma vida, essa pessoa não é um verdadeiro bodhisattva.

“Além disso, Subhuti, quando um bodhisattva pratica generosidade, ele não depende de nenhum objeto — nenhuma forma, som, cheiro, sabor, objeto tátil ou dharma — para praticar a generosidade. Esse, Subhuti, é o espírito com o qual um bodhisattva pratica a generosidade, sem se basear em sinais. Por quê? Se um bodhisattva pratica a generosidade sem depender de sinais, a felicidade resultante não pode ser concebida ou mensurada. Subhuti, você acredita que o espaço do quadrante oriental pode ser medido?

“Não, Mundialmente Honrado.”

“Subhuti, podem os espaços dos quadrantes oeste, sul ou norte, de cima ou de baixo, serem medidos?”

“Não, Mundialmente Honrado.”

“Subhuti, se um bodhisattva não depende de nenhum conceito enquanto pratica a generosidade, a felicidade que resulta desse ato virtuoso é tão grande quanto o espaço. Ela não pode ser mensurada. Subhuti, os bodhisattvas devem deixar suas mentes repousarem nos ensinamentos que acabei de dar.

“O que pensa você, Subhuti? É possível compreender o Tathagata através de sinais corpóreos?”

“Não, Mundialmente Honrado.” Quando o Tathagata fala a respeito de sinais corpóreos, não se está falando sobre sinais.”

O Buda disse a Subhuti: “No lugar onde houver algo que pode ser distinguido através de sinais, nesse lugar haverá engano. Se você pode enxergar a natureza livre de sinais dos sinais, você pode enxergar o Tathagata.”

O Venerável Subhuti disse ao Buda: “No futuro, haverá pessoas que, quando ouvirem esses ensinamentos, terão verdadeira fé e confiança neles?”

O Buda respondeu: “Não fale assim, Subhuti. Quinhentos anos após o desaparecimento do Tathagata, ainda haverá pessoas que apreciam a alegria e a felicidade que advêm da observância dos preceitos. Quando tais pessoas ouvirem essas palavras, terão fé e confiança de que esta é a verdade. Saiba que essas pessoas plantaram sementes não apenas durante a vida de um Buda, ou mesmo de dois, três, quatro ou cinco Budas; na verdade, plantaram sementes saudáveis durante as vidas de dezenas de milhares de Budas. Qualquer um que, mesmo por um momento, crê pura e claramente ao ouvir essas palavras do Tathagata, será visto e conhecido pelo Tathagata; e ele ou ela alcançará uma felicidade incomensurável por causa dessa compreensão. Por quê?

“Porque essa pessoa não está presa à ideia de um eu, uma pessoa, um ser vivo ou da duração de uma vida. Ele ou ela não está preso à ideia de um dharma, ou à ideia de um não-dharma. Ele ou ela não é aprisionado pela noção de que isso é um sinal e aquilo não é um sinal. Por quê? Se você está preso à ideia de um dharma, também está preso às ideias de um eu, de uma pessoa, de um ser vivo e da duração de uma vida. Se você está preso à ideia de que não existe dharma, você ainda está preso às ideias de um eu, uma pessoa, um ser vivo e da duração de uma vida. É por isso que não devemos nos prender aos dharmas ou à ideia de que os dharmas não existem. Este é o significado oculto quando o Tathagata diz, ‘Bhikshus, vocês devem saber que todos os ensinamentos que dou a vocês são uma jangada’. Todos os ensinamentos devem ser abandonados, para não mencionar os não-ensinamentos.”

O Buda perguntou a Subhuti: “Nos tempos antigos, quando o Tathagata praticava sob a orientação do Buda Dipankara, o Tathagata alcançou algo?”

Subhuti respondeu: “Não, Mundialmente Honrado. Nos tempos antigos, quando o Tathagata praticava sob a orientação do Buda Dipankara, ele não alcançou nada.”

“O que pensa você, Subhuti? Um bodhisattva dá origem a uma terra pura serena e bela?”

“Não, Mundialmente Honrado.” Por quê? Dar origem a uma terra pura serena e bela não é, na verdade, dar origem a uma terra pura serena e bela. É por isso que se chama dar origem a uma terra pura serena e bela.”

O Buda disse: “Então, Subhuti, todos os Bodhisattva Mahasattvas devem dar origem a uma intenção pura e clara neste sentido. Quando derem origem a essa intenção, não devem confiar em formas, sons, cheiros, sabores, objetos táteis ou objetos da mente. Devem dar origem à intenção sem que suas mentes se detenham em nenhum lugar.”

“Então, Subhuti, quando um bodhisattva dá origem à mente inigualável do despertar, ele deve desistir de todas as ideias. Não pode confiar em formas quando dá origem a essa mente, nem em sons, cheiros, sabores, objetos táteis ou objetos mentais. Ele só pode dar origem à mente que não está presa em nada.

“O Tathagata disse que todas as noções não são noções e que todos os seres vivos não são seres vivos. Subhuti, o Tathagata é aquele que fala das coisas como elas são, fala o que é verdadeiro e fala conforme a realidade. Ele não fala enganosamente ou de modo a agradar às pessoas. Subhuti, se dissermos que o Tathagata proferiu um ensinamento, esse ensinamento não é nem compreensível, nem enganoso.

“Subhuti, uma bodhisattva que ainda depende de noções para praticar a generosidade é como alguém caminhando no escuro. Ela não enxergará coisa alguma. No entanto, quando uma bodhisattva não depende de noções para praticar a generosidade, ela é como alguém com boa visão caminhando sob a luz forte do Sol. Ela consegue ver todas as formas e cores.

“Subhuti, não diga que o Tathagata tem como ideia: ‘Trarei os seres vivos para a margem da liberação.’ Não pense dessa maneira, Subhuti. Por quê? Na verdade, não existe um único ser para o Tathagata trazer para a outra margem. Se o Tathagata pensasse que há, ele seria aprisionado na ideia de um eu, uma pessoa, um ser vivo ou da duração de uma vida. Subhuti, o que o Tathagata chama de ‘eu’, essencialmente, não possui um eu da maneira que as pessoas comuns pensam que existe um eu. Subhuti, o Tathagata não considera ninguém como sendo uma pessoa comum. É por isso que ele pode chamá-los de pessoas comuns.

“O que pensa você, Subhuti? Alguém pode meditar a respeito do Tathagata por meio das trinta e duas marcas? “

Subhuti disse: “Sim, Mundialmente Honrado. Devemos usar as trinta e duas marcas para meditar a respeito do Tathagata. ”

O Buda disse: “Se você disser que pode usar as trinta e duas marcas para ver o Tathagata, então o Cakravartin também é um Tathagata?”

Subhuti disse: “Mundialmente Honrado, compreendo seu ensinamento. Não se deve usar as trinta e duas marcas para meditar sobre o Tathagata”.

Então o Mundialmente Honrado recitou estes versos:

“Alguém que me procure na forma
ou me busque no som
está em um caminho equivocado
e não pode enxergar o Tathagata.”

“Subhuti, se você pensa que o Tathagata alcança a mente mais elevada, mais realizada e desperta e não precisa ter todas as marcas, você está enganado. Subhuti, não pense dessa maneira. Não pense que, quando alguém dá origem à mente mais elevada, mais plena e desperta, precisa visualizar todos os objetos da mente como inexistentes, separados da vida. Não pense dessa maneira. Aquele que dá origem à mente mais elevada, mais realizada e desperta, não diz que todos os objetos da mente são inexistentes e isolados da vida.”

Após ouvirem o Senhor Buda proferir esse discurso, o Venerável Subhuti, os bhikshus e bhikshunis, leigos e leigas, e deuses e asuras, cheios de alegria e confiança, começaram a colocar tais ensinamentos em prática.

Vajracchedika Prajnaparamita Sutra
Taisho Revised Tripitaka 335


Texto traduzido do inglês para o português do Brasil por Eduardo Furbino para A Outra Margem. Versão original disponível no site de PlumVillage. Leia nossas notas de tradução.