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O Sutra do Coração

O Sutra do Coração

O Sutra do Coração (em sânscrito: Prajnaparamitahrdaya) — também chamado de Sutra da Perfeição da Sabedoria ou de A Compreensão que Nos Leva à Outra Margem, na nova tradução feita por Thich Nhat Hanh — é talvez o mais conhecido sutra budista mahayana.

Notável por sua brevidade, concisão e claridade, o Sutra do Coração tem esse nome por ser considerado representativo dos ensinamentos básicos dos Sutras da Perfeição da Sabedoria, que são muito mais longos. Não é raro ver o texto completo do sutra em uma única página.

A versão abaixo foi traduzida por Thay a partir do texto em chinês. Ao final do texto, está reproduzida a carta enviado por Thay à Sangha, explicando o motivo que o levou a trabalhar nesta nova versão do sutra.

A Compreensão que nos Leva à Outra Margem

Nova tradução do chinês para o inglês por Thich Nhat Hanh

Avalokiteshvara,
enquanto praticava profundamente
a Compreensão que nos Leva à Outra Margem,
repentinamente descobriu que
todos os cinco Skandhas são igualmente vazios e,
por meio dessa constatação,
ele superou todo o Mal-estar.

“Ouça, Sariputra,
este Corpo em si mesmo é o Vazio
e o Vazio em si mesmo é este corpo.
Este corpo nada mais é que o Vazio
e o Vazio nada mais é que este Corpo.
O mesmo é válido para Sentimentos,
Percepções, Formas Mentais,
e a Consciência.

“Ouça, Sariputra,
todos os fenômenos carregam a marca do Vazio;
sua verdadeira natureza é a natureza do
nem Nascimento, nem Morte,
nem Ser, nem não-Ser,
nem Impureza, nem Pureza,
nem Acréscimo, nem Decréscimo.

“É por isso que, no Vazio,
Corpo, Sentimentos, Percepções,
Formas Mentais e Consciência
não são entidades individuais independentes.

Os Dezoito Domínios dos Fenômenos,
que são os seis Órgãos dos Sentidos,
os seis Objetos dos Sentidos,
e as seis Consciências,
tampouco são entidades individuais independentes.

Os Doze Elos do Surgimento Interdependente
e a sua Extinção
também não são entidades individuais independentes.
O Mal-estar, as Causas do Mal-estar,
o Fim do Mal-estar, o Caminho,
compreensão e realização,
também não são entidades individuais independentes.

Quem puder enxergar isto
não necessita de mais nada para alcançar.

Bodhisattvas que praticam
a Compreensão que nos Leva à Outra Margem
não veem mais obstáculos em suas mentes,
e porque não há
mais obstáculos em suas mentes,
podem superar qualquer medo,
destruir todas as percepções equivocadas
e alcançar o Nirvana Perfeito.

“Todos os Budas no passado, presente e futuro
pela prática
da Compreensão que nos Leva à Outra Margem
são capazes de alcançar
Autêntica e Perfeita Iluminação.

“Portanto, Sariputra,
deve-se ser entendido que
a Compreensão que Nos Leva à Outra Margem
é um Grande Mantra,
o mais esclarecedor dos mantras,
o maior dos mantras,
o mantra além de qualquer comparação,
a Verdadeira Sabedoria que possui o poder
de cessar todos os tipos de sofrimento.
Portanto, proclamemos
um mantra para louvar
a Compreensão que Nos Leva à Outra Margem.

Gate, Gate, Paragate, Parasamgate, Bodhi Svaha!
Gate, Gate, Paragate, Parasamgate, Bodhi Svaha!
Gate, Gate, Paragate, Parasamgate, Bodhi Svaha!”

A tradução de “A Compreensão que Nos Leva à Outra Margem” para o inglês por Thich Nhat Hanh (2014) é distribuída sob a licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 4.0 Internacional. A tradução para o português do Brasil por Eduardo Furbino para A Outra Margem (2021) é distribuída sob a mesma licença.


Os motivos para uma nova tradução do Sutra do Coração

Mensagem explicativa de Thay aos seus alunos, traduzida do vietnamita. Thay escreveu este texto em 22 de agosto de 2014, após concluir o primeiro rascunho de sua tradução em vietnamita.

Querida família,

Thay precisa fazer esta nova tradução do Sutra do Coração porque o patriarca que originalmente compilou o Sutra do Coração não era suficientemente hábil com o uso da linguagem. Isso resultou em muitos mal-entendidos por quase 2.000 anos.

Thay gostaria de compartilhar com vocês duas histórias: a história de um monge noviço que fez uma visita a um mestre Zen e a história de um bhikkhu (monge) que fez uma pergunta ao Eminente Mestre Tue Trung.

1

Na primeira história, o mestre Zen perguntou ao monge noviço:
“Fale-me sobre a sua compreensão do Sutra do Coração.”

O monge noviço juntou as palmas das mãos e respondeu:

“Entendi que os cinco skandhas são vazios. Não há olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo ou mente; não existem formas, sons, cheiros, gostos, sentimentos ou objetos mentais; as seis consciências não existem, os dezoito reinos dos fenômenos não existem, os doze elos da originação dependente não existem, e mesmo a sabedoria e a realização não existem.”
“Você acredita no que o sutra diz?”
“Sim, eu acredito completamente no que ele diz.”

“Aproxime-se de mim”, o mestre Zen instruiu o monge noviço. Quando o monge noviço se aproximou, o mestre Zen imediatamente usou o polegar e o indicador para apertar e torcer seu nariz.
Em grande agonia, o noviço gritou: “Mestre! O senhor está me machucando!” O mestre Zen olhou para o noviço. “Agora mesmo você disse que o nariz não existia. Se o nariz não existe, o que está doendo?”

2

O Eminente Mestre Tue Trung foi um mestre Zen leigo que certa vez serviu como mentor do jovem rei Tran Nhan Tong, no Vietnã do século XIII. Um dia, um bhikkhu o visitou para perguntar a respeito do Sutra do Coração.

“Respeitado e Eminente Mestre, o que realmente significa a frase ‘forma é vazio, vazio é forma’?”
A princípio, o Eminente Mestre permaneceu em silêncio. Então, depois de um tempo, ele perguntou:
“Bhikkhu, você possui um corpo?”
“Sim, eu possuo.”
“Então, por que você diz que o corpo não existe?”

O Eminente Mestre então continuou: “Você acredita que no espaço vazio existe forma?”
“Não, não acredito que exista forma.”
“Então por que você diz que vazio é forma?”

O bhikkhu se levantou, fez uma reverência e seguiu seu caminho. Mas o mestre o convocou de volta para recitar a ele o seguinte gatha:

Forma é vazio, vazio é forma,
é um meio habilidoso criado temporalmente pelos Budas dos três tempos.
O vazio não é forma, a forma não é vazio
Sua natureza é sempre pura e iluminadora, nem presa ao ser nem, nem ao não-ser.

Nesta história, o Eminente Mestre Tue Trung parece contradizer o Sutra do Coração e desafiar a fórmula sagrada “forma é vazio e vazio é forma”, considerada inviolável na literatura Prajnaparamita.

Thay acredita que o Eminente Mestre foi longe demais. O mestre não foi capaz de ver que o erro não está na fórmula “a forma é o vazio”; pelo contrário, reside na imperícia da linha “portanto, no vazio não há forma”. De acordo com Thay, a forma como as palavras são usadas no Sutra do Coração — desde seu início até a linha “nem nascimento, nem morte, nem contaminado, nem imaculado, nem aumentando, nem diminuindo” — já é perfeita. O único arrependimento de Thay é que o patriarca que registrou o Sutra do Coração não adicionou as quatro palavras “nem ser, nem não-ser” imediatamente após as quatro palavras “nem nascimento, nem morte”, porque essas quatro palavras nos ajudariam a transcender a noção de ser e de não-ser, e não seríamos mais apanhados por ideias como “sem olhos, sem orelhas, sem nariz, sem língua…”. O nariz do monge noviço está dolorido até hoje. Voce compreende?

O problema começa com a frase: “Ouça, Shariputra, porque no vazio não há forma, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência” (em sânscrito: TasmacSariputrasunyatayamnarupamnavedananasamjnanasamskaranavijnanam). Que engraçado! Foi afirmado anteriormente que vazio é forma e forma é vazio, mas agora se diz o contrário: só existe vazio, não existe corpo. Essa linha do sutra pode levar a muitos mal-entendidos prejudiciais. Ela remove todos os fenômenos da categoria “ser” e os coloca na categoria “não-ser” (sem forma, sentimentos, percepções, formações mentais ou consciência…). Ainda assim, a verdadeira natureza de todos os fenômenos é a natureza do nem ser, nem não-ser; nem nascimento, nem morte. A perspectiva de “ser” é uma perspectiva extrema e a perspectiva de “não-ser” é outra perspectiva extrema. É por causa dessa imperícia que o nariz do monge noviço ainda está dolorido.

O famoso gatha atribuído ao sexto patriarca Hue Nang (Hui-neng), no qual ele apresentou sua compreensão ao quinto patriarca Hoang Nhan (Hung-jen), também expressa essa noção e é igualmente vítima da mesma visão equivocada:

Originalmente, não há árvore Bodhi
O espelho brilhante também não existe
Desde o não-começo dos tempos nada existiu
Então, onde pode a poeira assentar?

Podemos dizer:

”Uma nuvem branca passa e esconde a entrada da caverna
Fazendo com que muitos pássaros percam o caminho de casa.”

A revelação (insight) do prajnaparamita é a revelação mais libertadora, que nos ajuda a superar todos os pares de opostos — como nascimento e morte, ser e não-ser, contaminação e imaculação, acréscimo e decréscimo, sujeito e objeto, e assim por diante —, e nos ajuda a entrar em contato com a verdadeira natureza do nem nascimento, nem morte; nem ser, nem não-ser; etc., que é a verdadeira natureza de todos os fenômenos. Este é um estado de frescor, paz e ausência de medo que pode ser experimentado nesta vida, no seu próprio corpo e nos seus próprios cinco skandhas. É o nirvana. Assim como os pássaros apreciam o céu e os cervos apreciam as pradarias, os sábios apreciam residir no nirvana. Esta é uma frase muito bonita do Capítulo sobre o Nirvana do Dharmapada chinês.

A sabedoria do prajnaparamita é a verdade última, transcendendo todas as verdades convencionais. É a visão mais elevada do Buda. Qualquer um dos parágrafos do Tripitaka, mesmo na mais impressionante das coleções do Prajnaparamita, se contradisser isso, ainda estará preso à verdade convencional. Infelizmente, no Sutra do Coração encontramos tal parágrafo, e ele é bastante longo.

É por isso que, nesta nova tradução, Thay mudou a maneira de utilizar as palavras tanto no sânscrito original quanto na tradução chinesa de Huyen Trang (Xuan-Zang). Thay traduz da seguinte forma: “É por isso que no vazio, corpo, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência não são entidades individuais independentes”. Todos os fenômenos são produtos da originação dependente: esse é o ponto principal do ensinamento prajnaparamita. “Mesmo a compreensão (insight) e a realização não existem como entidades individuais independentes”. Esta frase é tão importante quanto a frase “forma é vazio”. Thay também adicionou “nem ser, nem não-ser” ao texto. Nem ser, nem não-ser é a visão profunda de Buda declarada no sutra Katyayana, quando ele proferiu uma definição sobre o entendimento correto. Essas quatro palavras, nem ser, nem não ser, ajudarão as gerações futuras a não sofrerem com torções no nariz.

O Sutra do Coração foi planejado para ajudar os Sarvastivadins a abandonarem a visão de nenhum eu e nenhum dharma (nenhum fenômeno). O ensinamento mais profundo do Prajnaparamita é a vacuidade do eu (atmasunyata) e a vacuidade do dharma (dharmanairatmya), e não a não-existência do eu e do dharma. O Buda ensinou no sutra Katyayana que a maioria das pessoas no mundo é capturada pela visão de ser e não-ser. Portanto, a frase “no vazio não há forma, sentimentos…”, obviamente, ainda está presa à visão do não-ser. É por isso que essa frase não corresponde à Verdade Suprema. A vacuidade do eu significa apenas a vacuidade do eu, não o não-ser do eu, assim como um balão que está vazio por dentro não significa que o balão não exista. O mesmo é verdade em relação à vacuidade do dharma: significa apenas a vacuidade de todos os fenômenos, e não a inexistência dos fenômenos. É como uma flor, que é feita apenas de elementos que não são flores. A flor é vazia de uma existência independente, mas isso não significa que a flor não esteja lá.

O Sutra do Coração apareceu tardiamente, em uma época em que o Budismo Tântrico começava a florescer. O patriarca que compilou o Sutra do Coração queria encorajar os seguidores do Budismo Tântrico a praticarem e recitarem o Sutra do Coração, então, é por isso que ele apresentou o Sutra do Coração como uma espécie de mantra. Esse também foi um meio habilidoso. Thay usou a frase “A compreensão que nos leva à outra margem” porque no mantra há a expressão paragate, que significa “ido para a outra margem, a margem da sabedoria”. Parayana e paramita foram traduzidos como “atravessar para a outra margem”. No Sutta Nipata há um capítulo chamado Parayana, que foi também traduzido como “passagem para a outra margem”.

Querida família, espero que gostem de praticar a nova versão do Sutra do Coração em inglês. Temos uma tradução para o inglês e o Irmão Phap Linh está compondo a música para o novo cântico. A próxima edição do Livro de Cânticos incluirá essa nova tradução. Ontem, dia 21 de agosto, após terminar a tradução por volta das três horas da manhã, um raio de luar adentrou o quarto de Thay.

Com amor e confiança,
Seu professor

Aśoka Institute, EIAB, Waldbröl


Texto traduzido do inglês para o português do Brasil por Eduardo Furbino para A Outra Margem. Versão original disponível no site de Plum Village. Leia nossas notas de tradução.