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Os Quarenta Princípios de Plum Village

Os Quarenta Princípios de Plum Village

Uma introdução aos Princípios

Os Quarenta Princípios foram formulados e ensinados por Thich Nhat Hanh (Thay) em Plum Village durante o Retiro de Primavera de 2006, o Retiro de Outono de 2006 e os Retiros de Inverno de 2006 e 2007. Eles servem como base para os ensinamentos e as práticas de Plum Village e para nossos Treinamentos da Consciência, sejam eles os Cinco dos leigos, os Dez dos noviciados, os Quatorze da Ordem, ou as várias centenas dos monásticos.

No início dos anos 90, Thay ministrou muitos cursos a respeito da história do pensamento budista em uma série de retiros de inverno, incluindo “A Tradição Viva da Prática da Meditação”, “Os Sutras da Transmissão do Sul”, “Os Sutras da Transmissão do Norte” e, em 2005, “Comentário Sobre as Rodas das Diferentes Escolas”, que discute os diferentes princípios defendidos por mais de vinte escolas budistas distintas. Esses ensinamentos nos dão uma visão geral da história do pensamento budista.

Os Princípios são a tentativa de Thay de identificar e definir os ensinamentos que mantemos, aprendemos e transmitimos em Plum Village e de capturar nosso relacionamento com os diversos caminhos existentes na história do budismo. Eles são o resultado do estudo e da prática dos ensinamentos e métodos budistas pela comunidade de Thay e de Plum Village, e de uma análise profunda da evolução das diversas escolas budistas e dos seus ensinamentos.

Thay compartilhou muitas vezes que, como praticantes budistas, devemos, de tempos em tempos, retornar e banhar-nos nas águas do budismo originário. Em Plum Village, temos “um profundo desejo de compreender a mensagem original do Buda, o professor que iniciou esta linhagem, e também um desejo de estudar e praticar para que, embora nos mantendo fiéis aos ensinamentos originais, possamos também responder às necessidades de prática espiritual e transformação do nosso tempo. As diferentes escolas de budismo, desde 140 anos após o Buda ter adentrado o nirvana até o início da (tradição) Mahayana, fizeram exatamente isso e, certamente, nossa comunidade deve fazer o mesmo.”

Thay também nos lembra: “É possível que nossas atitudes mudem hoje para nos adaptarmos a ter uma atitude mais profunda e relevante no futuro. Por ser fiel à postura aberta e não dogmática do budismo, Plum Village sempre mantém a porta escancarada para a mudança, de forma que nunca tenha uma atitude rígida e dogmática de que apenas a sua maneira de ver as coisas é a correta. Esta atitude é praticada regularmente, de modo a se remover o obstáculo do conhecimento (jneyavarana) e para sempre termos a oportunidade de prosseguir.”

“Dessa forma, o budismo muda, se adapta e progride da mesma maneira que a ciência o faz, de modo a servir à humanidade com mais eficácia o tempo todo. Há muito tempo somos influenciados pela máxima: “Repetição em vez de criatividade”. Essa atitude pertence mais ao fiel religioso devoto do que ao erudito. Devemos ter a coragem de revisar o que aprendemos à luz da nossa prática e reflexão”.

Durante este Retiro de 21 dias de 2016, teremos a oportunidade de reexaminar algumas das teses que Thay apresentou; explore como elas podem informar a nossa prática e como podem ser uma base para a aplicação dos Treinamentos da Ordem do Interser à medida que nos envolvemos ativamente com a sociedade. Como praticantes, convidamos você a ler esses princípios de Plum Village com uma atitude crítica e científica, que se baseia em sua própria experiência de prática.

Com amor e confiança,
A Equipe de Vulture Peak
20 de maio de 2016

Os Quarenta Princípios

  1. O espaço não é um dharma (fenômeno) incondicionado. Ele se manifesta juntamente ao tempo, à matéria e à consciência.
  2. Na dimensão histórica, todo dharma é um dharma condicionado. Na dimensão absoluta, todo dharma é um dharma incondicionado.
  3. Nirvana é a ausência de ignorância (avidya) e de aflições (klesah), mas não é a ausência de agregados (skandhah), esferas dos sentidos (ayatanani) e domínios de existência (dhatuh).
  4. Nirvana é nirvana. Não é necessário haver um nirvana residual (sopadisesa) ou não-residual (anupadisesa).
  5. É possível tocar o Nirvana no momento presente.
  6. Nirvana não é um fenômeno, mas a verdadeira natureza de todos os fenômenos.
  7. Não nascer significa Nirvana e é o despertar para a verdade da não-morte, do não vir e do não ir, do distinto e do indistinto, do inexistir e do não-inexistir.
  8. As concentrações no vazio, na ausência de sinais e na ausência de propósitos nos ajudam a tocar o Nirvana e o Incondicionado.
  9. Os Três Selos do Dharma são: impermanência, não-eu e Nirvana. Podemos apoiar Quatro Selos do Dharma ou Cinco Selos do Dharma com uma condição: que incluam o Nirvana.
  10. As concentrações básicas (samadhi) são as concentrações na impermanência, no não-eu e no Nirvana.
  11. Atenção plena, concentração e compreensão (insight) são as práticas essenciais que dão origem à libertação.
  12. Os princípios são atenção plena (sila é smrti). Princípios e conduta consciente são expressões concretas de atenção plena.
  13. A diligência correta é o treinamento da atenção plena (moralidade, sila), portanto, também é atenção plena.
  14. Atenção plena, concentração e compreensão (insight) contêm uma à outra. Todas as três podem trazer alegria, felicidade e libertação.
  15. A consciência do sofrimento nos ajuda a reconhecer as condições existentes para a felicidade e ajuda também a prevenir a prática de ações incorretas e o plantio de sementes negativas que trarão sofrimento.
  16. As Quatro Nobres Verdades são todas condicionadas. As Quatro Nobres Verdades são todas incondicionadas.
  17. A Terceira Nobre Verdade pode ser chamada de a verdade da felicidade.
  18. O livre arbítrio é possível graças aos Três Treinamentos.
  19. Você deve aprender a ver a Segunda Nobre Verdade como o caminho das oito práticas incorretas. A causa verdadeira do mal-estar não é apenas o desejo.
  20. Um verdadeiro arahat também é um bodhisattva e um verdadeiro bodhisattva também é um arahat.
  21. Como ser humano, você pode se tornar um Buda. Como um Buda, você continua a ser um ser humano. É por isso que numerosos Budas são possíveis.
  22. O Buda possui muitos corpos: o corpo de um ser vivo, o corpo do Dharma, o corpo fora do corpo, o corpo da Sangha, o corpo de continuação, o corpo do reino do Dharma, e a verdadeira natureza do corpo do reino do Dharma. Visto que os seres humanos podem se tornar Budas, eles também possuem todos esses corpos.
  23. Podemos descrever uma pessoa como um fluxo contínuo e em constante mudança dos cinco agregados. Este fluxo está sempre fluindo. Está relacionado com, recebe de e contribui para outras correntes de fenômenos. Não podemos descrever uma pessoa como um eu separado, imutável e permanente.
  24. Só podemos compreender o verdadeiro ensinamento do renascimento (samsara) à luz da impermanência, do não-eu e do interser.
  25. Felicidade e sofrimento inter-existem (inter-são). A aflição e a iluminação são ambas de natureza orgânica.
  26. O corpo da Sangha, o corpo do Buda e o corpo do Dharma inter-existem (inter-são). Em uma verdadeira Sangha, você pode encontrar o verdadeiro Buda e o verdadeiro Dharma.
  27. Visto que as aflições (klesah) e o despertar (bodhi) são de natureza orgânica, a prática precisa ser constante para que a transformação continue e para que o retrocesso não ocorra. Samsara é uma continuação e aquilo que é belo e salutar precisa ser continuado por tanto tempo quanto possível, enquanto aquilo que não é belo e é prejudicial precisa ser transformado para que não prossiga. O adubo deve ser usado para nutrir as flores.
  28. A libertação do samsara não significa extinguir o eu pessoal (pudgala), já que tal pessoa não é uma entidade real de qualquer maneira, nem significa extinguir o corpo dos princípios e a vida espiritual.
  29. Nascimento e morte são apenas manifestação ou não-manifestação. Tanto o manifestante quanto o manifestado ocorrem simultaneamente; a manifestação de algo é a não-manifestação de algo mais.
  30. Um dharma não é uma coisa, uma entidade, mas um processo, um evento e, sobretudo, um objeto da mente.
  31. A retribuição consiste tanto no corpo-mente quanto no ambiente, e é tanto individual quanto coletiva. Esta terra é a terra Saha para seres vivos, mas a Terra Pura para Budas e bodhisattvas.
  32. Não há um eu, mas ainda existe o ciclo de nascimento e morte, há inter-continuação e a natureza de toda inter-continuação é o interser.
  33. Cada geração de praticantes budistas precisa resistir às tendências humanas e precisa, por um lado, tornar o Buda divino e, por outro, tentar encontrar um princípio que ocupe o lugar do eu.
  34. A consciência armazenadora pode aprender, armazenar, proteger, responder, nutrir, curar e continuar. Sua função é estabelecer um banco de dados e hábitos inconscientes em resposta às situações, que possibilitem a um ser humano agir em “piloto automático”.
  35. Manas (a mente) tem a tendência de buscar segurança e prazer duradouro. Ela ignora a lei da moderação, o perigo da busca pelo prazer e a bondade do sofrimento. Ela não enxerga a necessidade da compreensão (insight) da impermanência, do não-eu, do interser, da compaixão e da comunicação.
  36. Por meio da prática da atenção plena, concentração e compreensão (insight), a consciência da mente pode aprender e armazenar suas compreensões na Consciência Armazenadora, deixando a Consciência Armazenadora fazer o trabalho de amadurecê-las, para então manifestar as sementes de sabedoria que já são inatas à Consciência Armazenadora.
  37. A prática essencial do Budismo Originário são os Quatro Domínios da Atenção Plena, que tem a função de reconhecer e transformar as energias do hábito e de realizar plenamente os Sete Fatores da Iluminação e o Nobre Caminho Óctuplo. A prática Mahayana de meditação, incluindo o Zen dos patriarcas, precisa voltar a banhar-se no Budismo Originário de tempos em tempos, para não perder os Ensinamentos Essenciais do Dharma de Buda.
  38. A realidade da Terra Pura ou do Nirvana transcende tanto o espaço quanto o tempo. A realidade de tudo o mais é precisamente a mesma.
  39. Condições, sentimentos, skandhas, ayatanas, dhatus, vijnana, etc., são maneiras diferentes de apresentar os ensinamentos. Essas formas distintas de apresentar os ensinamentos não se opõem umas às outras.
  40. Os ensinamentos sobre impermanência, não-eu, interdependência, vazio, ausência de sinais, ausência de propósitos, atenção plena, concentração, percepção, etc., constituem o coração da sabedoria budista. Eles podem caminhar lado a lado com o espírito da ciência, podem ser usados em diálogo com a ciência, e oferecer sugestões para e servir de suporte à investigação científica. A ciência moderna deve tentar superar a tendência ao duplo apego e os cientistas devem treinar-se para desenvolver sua capacidade de intuição.

Texto traduzido do inglês para o português do Brasil por Eduardo Furbino para A Outra Margem. Versão original disponível no site da Ordem do Interser. Leia nossas notas de tradução.